Em um edifício da década de 1940, no Rio de Janeiro, o arquiteto preserva a arquitetura original e abre espaço para um acervo construído ao longo dos anos, com obras de artistas brasileiros, peças de design e objetos que fazem parte da história dos moradores
Há apartamentos que revelam seus moradores antes mesmo de apresentar os ambientes. Neste, localizado em um edifício dos anos 1940, no Flamengo, no Rio de Janeiro, a história começa no hall de entrada e se estende por uma coleção de arte brasileira, móveis de diferentes épocas e objetos reunidos ao longo da vida. Assinado pelo arquiteto Pedro Coimbra, o projeto encontra na arquitetura original o cenário para um acervo profundamente pessoal. Do lado de fora, a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar lembram que a paisagem também faz parte do apartamento.
Os ambientes amplos, o pé-direito alto, as portas largas e os pórticos preservados dão a medida da arquitetura da época. Em vez de alterar essa estrutura, Pedro Coimbra trabalhou a partir dela, acomodando o repertório dos moradores em espaços que mantêm a elegância de suas proporções originais.
A arte tem presença marcante no apartamento. Formado quase inteiramente por trabalhos de artistas brasileiros ou radicados no país, o acervo foi reunido ao longo dos anos e revela interesses que atravessam gerações. Obras contemporâneas dividem espaço com manifestações da arte popular, em uma seleção que acompanha a história da família e participa da rotina da casa.
Logo na entrada, uma antiga porta de ferro, um espelho de grandes dimensões e pedras reaproveitadas convivem com carrancas de madeira e obras de Aberaldo, artista da Ilha do Ferro, em Alagoas, Dudu Garcia, Rosina Becker e Yuri Simões. O banco de Sérgio Rodrigues encontra lugar entre vasos de Sabrina Cuiligotti e peças da coleção de Paloma Danemberg. A presença de uma coleção de patinhos, próxima a uma obra de Raul Mourão, introduz uma dose de humor e revela a liberdade com que os moradores construíram seu universo particular.
Na área social, o piso de madeira original percorre a sala de estar e a sala de jantar, que compartilham um mesmo espaço. A amplitude favorece os encontros, enquanto o mobiliário organiza diferentes áreas de convivência. Nas paredes, trabalhos de grandes dimensões de Arthur Grangeia dialogam com obras de Antonio Kuschnir e Duda Morais. A seleção inclui peças de Neguinha, Mestre Cida e Zé Bezerra, além de referências à produção artística indígena.
Entre os móveis, clássicos do design brasileiro encontram novas companhias. A mesa de centro Pétalas, de Jorge Zalszupin, divide a cena com um banco do mesmo autor e com a poltrona Mole, de Sérgio Rodrigues. Há também peças de Joaquim Tenreiro, que ajudam a compor uma sala marcada pela diversidade de desenhos e procedências.
Um antigo móvel usado como queijeira foi transformado em aparador e hoje recebe uma coleção de obras de Aberaldo. A escolha resume uma característica do projeto: peças que já tiveram outras funções encontram novos usos, preservando as marcas de sua trajetória. Trabalhos de Yutaka Toyota e Véio, nome artístico de Cícero Alves dos Santos, ampliam o encontro entre a produção contemporânea e a tradição escultórica popular.
Na sala de jantar, Brasília surge como referência no desenho da mesa, acompanhada por cadeiras Lúcio Costa, de Sérgio Rodrigues. Nas cabeceiras, duas cadeiras de Oscar Niemeyer completam o conjunto. O mobiliário modernista ocupa seu lugar entre as obras de arte e os objetos pessoais, em uma composição distante da rigidez de um ambiente de exposição.
A varanda guarda outra particularidade do imóvel: o piso de pedra original, mantido no projeto. Ali, a vista para a Baía de Guanabara se abre diante de um conjunto de móveis que convida a permanecer. As poltronas Tetê, de Sérgio Rodrigues, aparecem ao lado de uma mesa de centro azul e de uma escultura de Beto Gatti. Uma mesa de mosaico, também azul, reúne cadeiras listradas em azul e branco, enquanto uma poltrona de aço inox, de Zanine, introduz outra linguagem ao ambiente.
Nichos arqueados nas paredes abrigam livros e obras de arte, prolongando o repertório presente nos demais cômodos. Entre a arquitetura preservada e a paisagem carioca, a varanda assume o caráter de uma sala aberta para a cidade.
As portas de correr levam à sala de TV, onde o desenho dos interiores acompanha uma rotina mais reservada. O sofá generoso e as almofadas convidam ao descanso, enquanto mesas laterais produzidas com mármore reaproveitado retomam o interesse por materiais que ganham uma segunda vida. No escritório, a marcenaria original permanece como parte da identidade do apartamento, acompanhada por obras de arte.
Na suíte principal, a cabeceira de pedra, de textura expressiva, torna-se o elemento de destaque. Mesas laterais de mármore acompanham a cama, e a presença de obras de arte mantém a relação com os demais espaços. O banheiro reúne uma bancada de madeira com duas cubas, enquanto o closet conserva os armários originais. Os quartos das meninas completam a área íntima, reservada à rotina familiar.
Ao percorrer o apartamento, percebe-se que a identidade dos interiores nasce menos de uma escolha estética previamente estabelecida e mais da convivência entre peças que chegaram à casa em diferentes momentos. O modernismo de Sérgio Rodrigues, Jorge Zalszupin e Joaquim Tenreiro encontra a inventividade dos artistas populares brasileiros. Objetos herdados ou garimpados ganham lugar ao lado de obras contemporâneas, sem hierarquias aparentes.
A arquitetura de Pedro Coimbra dá espaço a essa história sem tentar reorganizá-la em torno de uma única linguagem. Preserva o que o edifício tem de original e acolhe o que os moradores trouxeram consigo. No Flamengo, diante de uma das paisagens mais conhecidas do Rio, o apartamento encontra sua singularidade justamente naquilo que pertence à vida de quem o habita.
Crédito das fotos: Daniela Magario
Texto: DaTa Studio de Comunicação
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