Em sua oitava participação na CASACOR SC, Rico Mendonça transforma sua trajetória de 30 anos entre a arquitetura, o design e a arte em uma experiência espacial que revela um lado menos conhecido de sua produção: o de artista
Intitulado Galeria Paralelo 30, o ambiente nasce como uma espécie de autobiografia visual do designer, arquiteto e artista plástico Rico Mendonça. Mais do que uma galeria convencional, é um espaço de memória, encontros e expressão, onde arquitetura e arte contam uma história construída ao longo de três décadas. São 96 peças autorais, que simbolizam o ano de 1996, quando tudo começou.
O nome carrega um significado especial: Paralelo 30 marca os 30 anos de carreira de Rico e também seu reencontro com a CASACOR SC, três décadas depois de sua primeira participação, em 1996. Esta é sua 8ª participação na CASACOR SC e sua 18ª participação em mostras de decoração, considerando também outras franquias e convites para integrar exposições e mostras em diferentes locais ao longo de sua trajetória. É, portanto, um espaço que fala sobre o tempo, sobre transformação e sobre aquilo que permanece como essência ao longo da vida.
A Galeria Paralelo 30 está inserida na grande circulação central da CASACOR, com 144 m2. Sua localização, no centro da mostra, acrescenta uma dimensão simbólica importante ao projeto: a galeria ocupa um lugar de passagem, encontro e conexão, onde diferentes percursos da exposição se cruzam. Essa posição central dialoga diretamente com o conceito do ambiente. Assim como o coração ocupa uma posição fundamental no corpo humano, a galeria encontra-se no centro da mostra, funcionando como um espaço de convergência entre arquitetura, arte, memória e experiência.
O coração da mostra
O visitante não chega à galeria apenas para contemplar obras. Ele atravessa um espaço que faz parte do próprio percurso da CASACOR SC, estabelecendo uma relação entre o ambiente, os demais projetos e as pessoas que circulam pela mostra. A proposta dialoga diretamente com o tema desta edição, “Mente e Coração”. Essa relação aparece de maneira simbólica na própria arquitetura do ambiente.
Para as paredes, Rico escolheu a cor Jalea de Ciruela Claro, da Coral, um tom profundo e envolvente que participa ativamente da narrativa espacial. A tonalidade estabelece uma atmosfera acolhedora e introspectiva e, dentro do conceito do projeto, faz referência ao universo cardíaco, à pulsação, ao sangue e ao coração como órgão central do corpo humano.
Fragmentos da memória
Rico Mendonça durante a Avant Première – Foto/Carlos Alves
Se o coração representa o sentir, as obras representam os pensamentos, as lembranças e as experiências que habitam a mente. A distribuição das obras pelo ambiente não acontece apenas de maneira estética ou decorativa: elas foram organizadas como fragmentos de uma memória, pensamentos que se encontram, se sobrepõem e estabelecem relações entre diferentes momentos da trajetória do artista.
Cada pintura, desenho, bordado, cerâmica ou objeto artístico carrega uma parte desse percurso, conectando experiências vividas, lembranças, afetos e reflexões. Assim, o ambiente não separa arquitetura e arte. O espaço é o corpo; o coração é a arquitetura; e as obras são os pensamentos e as memórias que circulam dentro dele.
Cinco capítulos de uma mesma história
A Galeria Paralelo 30 é organizada em cinco pequenas galerias, concebidas não como ambientes independentes, mas como capítulos de uma única narrativa:
IDENTIDADE — o ser
HABITAR — o lugar
DA TERRA — a origem
TEMPO — as marcas
MATÉRIA — o vestígio
A sequência parte do indivíduo e se amplia para o espaço que habitamos, para a natureza, para as marcas deixadas pelo tempo e, finalmente, para a matéria como registro e memória.
Técnicas diferentes
As obras transitam por diferentes fases e técnicas da produção artística de Rico, incluindo desenhos em nanquim, pinturas, aquarelas, bordados, cerâmicas e outras experimentações. São trabalhos que abordam o corpo, os rostos, as casas, as paisagens, as ruínas, a natureza, a passagem do tempo e os vestígios das experiências humanas.
A membrana que divide e conecta
Outro elemento fundamental do projeto são as persianas que separam cada uma das cinco pequenas galerias. Elas funcionam simultaneamente como divisórias e como elementos simbólicos. A referência está nas membranas que compartimentam o coração, criando diferentes espaços dentro de um mesmo órgão.
As persianas estabelecem limites entre os núcleos, mas permitem que os espaços permaneçam visualmente conectados, assim como pensamentos e memórias nunca estão completamente isolados uns dos outros. Quando atravessa essas divisórias, o visitante percorre diferentes estados de uma mesma narrativa. Há sempre uma continuidade, uma passagem entre um capítulo e outro, como se estivesse transitando pelo interior de um organismo vivo.
A iluminação, os materiais, o mobiliário, a cor e a disposição das obras foram pensados para reforçar essa experiência. A arquitetura deixa de ser apenas o suporte da exposição e passa a fazer parte da própria obra.
Três décadas entre arquitetura e arte
A Galeria Paralelo 30 também representa um momento de síntese na trajetória de Rico Mendonça. Depois de três décadas projetando interiores, criando mobiliário, participando de mostras e desenvolvendo paralelamente sua produção artística, o arquiteto escolheu a CASACOR para apresentar essas duas faces de seu trabalho no mesmo espaço.
É o arquiteto olhando para sua própria trajetória através dos olhos do artista. A galeria reúne passado e presente, técnica e experimentação, projeto e memória. As obras não aparecem como elementos isolados, mas como parte de uma narrativa pessoal que encontra na arquitetura o espaço para existir.
“A Galeria Paralelo 30 é, portanto, o encontro entre coração e mente, entre arquitetura e arte, entre memória e matéria. Um ambiente sobre o que sentimos, sobre o que pensamos e sobre aquilo que o tempo deixa em nós”, resume o multitalentoso Rico Mendonça.
Minibio
Rico Mendonça – Foto/Camila Stuart
Rico Mendonça é arquiteto, designer e artista plástico, com 30 anos de trajetória em Florianópolis. Formado em Design e Arquitetura, com mestrado em Moda pela UDESC, atua entre a arquitetura de interiores, o design, a cenografia e as artes visuais. Sua produção artística investiga memória, identidade, ancestralidade, matéria e tempo. Nesta CASACOR, arquitetura e arte se encontram em uma galeria que reúne diferentes momentos de sua trajetória e celebra três décadas de criação.
Foto/Camila Stuart
Texto: Alessandra Cavalheiro
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