SOCIAL
To Top

Edifícios de concreto aparente em bairros nobres de Curitiba resgatam estética brutalista

Sacadas e vigas de borda com concreto exposto como protagonista no acabamento marcam novas construções da Thá Engenharia na capital paranaense

Quem passa pela icônica Avenida Sete de Setembro, esquina com a movimentada Cândido Xavier, no Batel, percebe um edifício que rompe discretamente com a paisagem predominante de um dos bairros mais badalados de Curitiba. Colunas arredondadas, varandas horizontais extensas e vigas expostas anunciam uma escolha arquitetônica pouco comum no mercado residencial local: o concreto aparente como linguagem e acabamento.

O MOVA.WF, empreendimento com a obra executada pela Thá Engenharia e desenvolvido pela incorporadora Weefor, aposta no resgate da estética brutalista em uma das regiões mais valorizadas de Curitiba com a materialidade do concreto exposto como protagonista.

São sete andares e um ático divididos em uma única torre com quatro apartamentos por pavimento, com metragens que variam de 130 m² a 264 m², distribuídas entre uma e quatro suítes. Todas as unidades contam com janelas amplas e varandas que se estendem entre nove e 18 metros lineares, apoiadas por colunas arredondadas e vigas de concreto exposto.

No bairro  Bigorrilho, na Alameda Princesa Izabel, esquina com as ruas Brigadeiro Franco e Desembargador Motta, outro empreendimento executado pela Thá Engenharia também incorpora a linguagem arquitetônica do brutalismo. O Edifício Aurea 777, surge como uma proposta ousada que une o conforto da arquitetura moderna com a elegância e robustez do brutalismo. O edifício, assinado pela incorporadora Opera Prima, está com 88% da obra finalizada.

Com 10 andares, o prédio é composto por uma única torre, sendo dividida por 16 apartamentos tipo duplex com mais de 4 m² de fachada em concreto aparente em toda face frontal. Outro ponto chave do projeto são as colunas arredondadas no térreo, reforçando a percepção brutalista da obra.

“Um dos grandes diferenciais do concreto aparente é sua durabilidade, resistência ao desgaste e facilidade de manutenção. Eliminando a necessidade de revestimentos adicionais, reduz custo e prazo, sendo uma escolha sustentável, minimizando a geração de resíduos”, destacou Jeane Silva, engenheira da Thá e coordenadora do Aurea 777.

A história da Thá Engenharia com o brutalismo não é atual. Nos anos 70, uma obra brutalista imponente, projeto dos arquitetos Luiz Forte Netto, Orlando Busarello e Dilva Busarello, se destaca no centro de Curitiba: os Edifícios da Glória. Entre linhas brutalistas e grandes pilares, os empreendimentos se consolidam em uma região boêmia e pluricultural, palco de diversos bares dançantes e na memória de milhares de pessoas que percorrem a Travessa Nestor de Castro e a Rua Doutor Muricy.

Conhecida popularmente como as “Torres Gêmeas Curitibanas”, a obra entroncada e robusta abrange 30 pavimentos e 20.800 m² e marca a história arquitetônica do município. As edificações são interligadas por um bloco horizontalizado, que configura o bloco C, onde funciona uma galeria comercial. O espaço ocupa tanto o pavimento térreo quanto o nível de sobrelojas, reunindo uma diversidade de serviços. A platibanda surge com acabamento chanfrado, dialogando de forma equilibrada com a volumetria da obra. O concreto aparente também aparece nas fachadas e na composição de grandes blocos geometrizados, que formam floreiras e marquises.

Concreto aparente e estrutura premium

No brutalismo, o concreto aparente assume o protagonismo do revestimento como estética arquitetônica. Nas duas edificações, a linguagem está presente desde a concepção à funcionalidade do concreto exposto nas sacadas, vigas de borda, no térreo e em áreas compartilhadas. Para manter a durabilidade do concreto exposto, o material recebe um aditivo cristalizador inserido na própria massa, garantindo impermeabilização e maior durabilidade.

O concreto aparente, por se tornar o próprio revestimento, demanda precisão. Eventuais erros não podem ser mascarados por acabamentos posteriores. Ao mesmo tempo, trata-se de um material mais durável, concentrando estrutura e acabamento em um único sistema construtivo.

“O concreto exposto tem uma linguagem estética única, mas com ampla gama de possibilidades criativas, mas o alto custo do material e da mão de obra especializada e a dificuldade em mitigar possíveis erros ainda pesa na incorporação desse conceito na paisagem urbana”, explicou Marcelo de Souza Moreira, coordenador da obra e engenheiro da Thá.

O engenheiro Jaude Ricardo Loures Rocha, especialista no tratamento de concreto aparente explica que o concreto utilizado em obras convencionais não exige necessariamente paginação de formas ou preparação específica para acabamento. “Essa característica do brutalismo torna o uso do concreto aparente  quase “artesanal” e único, já que a mesma forma não pode ser replicada exatamente igual como se fosse um material industrializado produzido em larga escala”, disse.

Embora para o leigo a construção de um edifício por meio do concreto aparente pareça descomplicada, o diretor de PCP da Thá Engenharia, Gilberto Kaminski, explica que na prática a execução não é tão simples.  “O concreto aparente exige uma qualificação técnica e um conhecimento profundo. O concreto tem que ser especial, porque não existe o revestimento final. Ele precisa resistir intempéries ao longo dos anos, a todas as ações do tempo, desgastes e tudo mais”, comenta.

Para este tipo de obra, o tratamento feito sobre a superfície é excepcional. As formas precisam ser diferenciadas, há impermeabilizantes, aditivos e um conhecimento específico para fazer de uma maneira diferenciada e melhor estruturada. “A estrutura tem que ficar com o acabamento definitivo, ela não pode receber correções, ter desalinhamentos, emendas e nem falhas de concretagem”, pontua.

Arquitetura brutalista desafia rótulo conservador de Curitiba

O perfil do curitibano costuma ser associado à exigência e ao conservadorismo. Ao mesmo tempo, a cidade abriga uma tradição de vanguarda. O brutalismo ainda é tema de debate nos corredores das faculdades de arquitetura, mas a capital paranaense mantém uma forte influência arquitetônica com nomes reconhecidos nacional e internacionalmente que trabalham com a estética do concreto aparente, como Marcos Bertoldi, Jayme Bernardo, Mauricio Melara, Rubens Meister, Villanova Artigas, entre outros.

Não é difícil encontrar obras brutalistas ao caminhar pela cidade. A sede do poder executivo do Governo do Paraná, o Palácio Iguaçu, do arquiteto David Xavier Azambuja, flerta com o modernismo e com o brutalismo com suas longas colunas e vigas de concreto aparente.

Mas, o exemplo mais icônico do brutalismo em Curitiba talvez seja o prédio do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná. Construído no fim da década de 1970, o prédio chama a atenção por sua ousadia arquitetônica com concreto aparente sem  revestimento ou ornamentos, com estrutura inclinada e maciça, evidenciando a textura, peso e solidez da obra com linhas e ângulos pesados e imponentes.

Brutalismo surge como resposta urbana do pós-guerra

O brutalismo é um desdobramento radical do movimento moderno da arquitetura, surgido no contexto do pós-guerra, com forte intenção social. O movimento surge como uma resposta às necessidades de reconstrução, habitação e grandes intervenções urbanas, por meio de projetos de grande escala, funcionais e racionais do continente devastado pelo conflito.

No Brasil, o brutalismo encontrou condições favoráveis para se desenvolver. A ausência de uma indústria siderúrgica avançada e o menor custo da mão de obra fizeram do concreto armado o material ideal, levando o país a se especializar nessa técnica. Arquitetos e engenheiros brasileiros alcançaram alto nível técnico, tornando o concreto armado um protagonista de obras reconhecidas internacionalmente, com destaque para nomes como Oscar Niemeyer, Lina Bo Bardi e Paulo Mendes da Rocha.

Outro aspecto fundamental é a adaptação ao clima brasileiro. Diferente da Europa, o brutalismo no Brasil incorporou grandes áreas abertas, varandas, elementos vazados e térreos livres presentes no vão livre do MASP, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Design da USP e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM).

 

 

 

Texto:   Gabriela Vizine

Imagem: divulgação

———————————————————————————-

Somos o Grupo Multimídia, editora e agência de publicidade especializada em conteúdos da cadeia produtiva da madeira e móveis, desde 1998. Informações, artigos e conteúdos de empresas e entidades não exprimem nossa opinião. Envie informações, fotos, vídeos, novidades, lançamentos, denúncias e reclamações para nossa equipe através do e-mail redacao@grupomultimidia.com.br. Se preferir, entre em contato pelo whats app (11) 9 9511.5824 ou (41) 3235.5015.

​Conheça nossos ​portais, revistas e eventos​!

madeiratotal.com.br
revistavarejobrasil.com.br
megamoveleiros.com.br
revistause.com.br
www.hotex.com.br

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais em Arquitetura

A Revista USE é uma publicação inédita no Brasil sobre o design intrínseco nas mais variadas peças do mobiliário, decoração e artigos de desejo que traduzem nossa relação com o mundo e tudo o que nos cerca.

Portal - No portal vocês poderão conferir notícias atualizadas diariamente sobre o mundo da decoração, suas inovações e tendências.

Revista - Com publicação quadrimestral, a revista impressa reúne o que há de mais inusitado do mundo do design com distribuição em todo Brasil, tem duas versões: impressa e digital.

Revista USE. 2024 - Todos os direitos reservados.