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Arquitetura contra a solidão: modelo nórdico inspira novo nicho imobiliário no Brasil

 

Países escandinavos transformaram a forma de morar em estratégia para promover autonomia e convivência, e hoje são inspiração para a mudança do mercado imobiliário nacional.

Durante décadas, países como Dinamarca e Suécia enfrentaram um desafio que hoje começa a ganhar dimensão também no Brasil: o envelhecimento acelerado da população e o aumento da solidão entre pessoas mais velhas. A resposta encontrada não veio apenas da saúde ou da assistência social, mas da arquitetura.

Ao longo dos últimos anos, diferentes iniciativas escandinavas passaram a desenvolver comunidades planejadas para estimular encontros espontâneos, fortalecer relações de vizinhança e preservar a autonomia dos moradores por mais tempo. Conhecidos por conceitos como bofællesskab, ou “comunidades intencionais”, esses projetos deixaram de ser apenas uma tendência urbanística para se tornarem objeto de estudos sobre qualidade de vida, envelhecimento ativo e saúde mental.

Agora, essa lógica começa a chegar ao Brasil: a Söderhem, empresa sueco-brasileira fundada por Daline Hällbom, prepara, em parceria com a Domini Incorporadora, seu primeiro empreendimento no país, previsto para ser lançado em Florianópolis no início de 2027. Inspirado em experiências consolidadas nos países nórdicos, o projeto nasce para atender um público ainda pouco contemplado pelo mercado brasileiro: pessoas acima dos 55 anos, independentes, ativas e que desejam planejar a próxima fase da vida sem abrir mão de autonomia, privacidade e convivência.

“O Brasil costuma associar moradia para pessoas mais velhas a modelos assistenciais. Nos países nórdicos, aprendemos que existe um longo período da vida em que as pessoas querem exatamente o contrário: continuar independentes, mas vivendo em ambientes que favoreçam conexões humanas e qualidade de vida”, afirma Daline.

O lançamento acontece em um momento de profunda transformação demográfica. Segundo o IBGE, o Brasil já possui mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Até 2050, esse grupo deverá representar quase um terço da população brasileira, acompanhando uma tendência mundial. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que a população global acima dos 60 anos ultrapassará 2 bilhões de pessoas nas próximas décadas.

Essa mudança também movimenta a economia. De acordo com a Data8, a chamada economia prateada já representa aproximadamente R$ 1,8 trilhão por ano no Brasil e deverá ganhar participação crescente no consumo nacional, impulsionando setores como turismo, saúde, tecnologia e mercado imobiliário. Apesar desse potencial, a oferta de produtos residenciais voltados à longevidade ativa ainda é limitada.

Grande parte dos empreendimentos destinados ao público maduro continua concentrada em modelos assistenciais, enquanto cresce uma geração de consumidores que permanece profissionalmente ativa, viaja, pratica atividades físicas e busca moradias compatíveis com esse estilo de vida.

Mais do que um conceito estético, o modelo que inspira a Söderhem parte de um princípio cada vez mais estudado por pesquisadores das áreas de arquitetura, urbanismo e neurociência: o ambiente construído influencia diretamente a forma como as pessoas vivem, convivem e envelhecem.

Comunidades planejadas para favorecer encontros cotidianos, circulação a pé, áreas compartilhadas e integração social vêm sendo associadas à redução do isolamento e ao fortalecimento dos vínculos comunitários, fatores reconhecidos pela literatura científica como importantes para a qualidade de vida na maturidade.

“Não estamos falando apenas de um apartamento diferente. Estamos falando de criar um ambiente onde a convivência acontece naturalmente, porque a arquitetura favorece isso. O espaço deixa de ser apenas um lugar para morar e passa a funcionar como um facilitador das relações humanas”, explica Daline.

A escolha de Florianópolis para o primeiro empreendimento também acompanha essa leitura. Além da reconhecida qualidade de vida, a capital catarinense apresenta um dos índices de envelhecimento mais elevados do país e se consolida como destino para brasileiros que buscam uma nova etapa da vida próxima à natureza, com infraestrutura urbana e segurança.

Para a Söderhem, a cidade reúne características que podem transformá-la em referência nacional na discussão sobre longevidade ativa: “o envelhecimento da população não é um desafio do futuro. Ele já está acontecendo. A questão agora é como as cidades, o mercado imobiliário e a própria sociedade vão responder a essa transformação”, conclui Daline.

 

 

 

Texto:   Katiuscia Zanatta

Imagem: divulgação

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